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Memória e transformação social

Seguindo a tendência historiográfica que considera a memória e o costume como elementos transformadores, eu recordo do meu querido arruado da Usina Treze de Maio em Palmares, Pernambuco. Dos tempos em que os trabalhadores viviam uma situação paradoxal, no mínimo. Uma vez que se sentiam ameaçados e protegidos pelo usineiro. Não havia ladão em Palmares que se aventurasse passar do limite, que hoje não existe mais entre a Rua Coronel Izácio e o território da usina. Eram os tempos da proteção, do paternalismo. Eu não recordo quantas vezes minha, mãe, Lindacy, a primeira mulher mulher a ocupar um cargo de chefia (departamento pessoal agrícola) em usina de açúcar que eu já ouvi falar, tempos em que a dona também era uma mulher. Verdadeiras exceções em um mundo mandado por homens. Homens estes que obrigavam que todos os chamassem de doutores, embora nem fossem bacharéis em alguma coisa. 


Recordar o arruado da usina com suas casas simetricamente ordenadas é lembrar do conceito de classe, como algo que os iguala, não somente pela simetria das casas que faria que um observador atento pudesse enxergar por entre as janelas desde a primeira casa até a última, mas por sua condição de operário da usina. Pois bem este trabalhar na usina era dividido basicamente em Zona Rural, Indústria, escritório e Laboratório. Além dos serviços que a usina oferecia como o de saúde no ambulatório, pedagógico com a escola da usina, laser com o clube etc. A usina preenchia a vida dos seus operários e familiares. Quando eu era criança, a usina inicialmente pagou uma parte dos meus estudos e, minha mãe pode comprar uma bicicleta por intermédio da usina. 



Hoje, com um pouco mais de reflexão que fui adquirindo com os operários da usina, pude entender as ligações profundas que foram traçadas entre as pessoas em torno da usina. Hoje eu e minha família reformamos a casa, mas ainda preservamos a faixada. É uma casa de operário, de gente simples que tem mais haver entre si do que pode-se imaginar. 
Por incrível que possa parecer, esta memória simples, esta breve reflexão é o ponto de encontro para milhares de pessoas. A memória não é algo somente individual, mas coletivo. 
Lembrar do querido arruado da usina para mim é transformador. Significa se considerar parte de uma mesma história onde todos tem importância, o sentimento de pertença a uma classe operária. E, ainda mais estabelecer caminhos novos para o bem comum.
 Esta linha de raciocínio também está ancorada a partir das leituras de E. P. Thompson em "A Formação da Classe Operária Inglesa" e em José Sérgio Leite Lopes em "Memória e transformação social" Pesquisas diferentes, temas diferentes, mas uma só constatação: a imprescindível conexão entre memória, costume no fazer-se da classe operária.
A história é de todos.

Abraços e que Deus nos ilumine. 

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