
A reflexão sobre gênero está na esteira dos debates desenvolvidos a partir da revolução sexual da década de 60 e da crescente importância do femininismo1 para a produção historiográfica. Entretanto, podemos afirmar que está surgindo um novo modo de escrita da história com novas perceptivas ou há uma simples reprodução de esquemas antigos com a ilustre presença de novos atores?2 Me parece que a questão não é tão simples assim, pois envolve em si, elementos carregados de sentido muito amplos, como é o caso da relação gênero-escrita. Esta nova realidade vem causando aos historiadores que se aventuram neste novo caminho alguns problemas de ordem teórica, metodológica, de fontes e de explicação por falta de referências mais robustas.
Além do binômio heterossexual: homem e mulher, as múltiplas formas de viver a sexualidade não pode escapar a uma história vista de baixo3, ou seja uma escrita da história que privilegie os excluídos do modelo tradicional. Se tudo, desde a Escola dos Analles é história, então as minorias também podem fazer parte deste mosaico de significado no século XXIX. Neste sentido, convém mencionar que o simbolo do arco-íris4 começa paulatinamente a ter espaço nas transmissões televisivas, em algumas manifestações religiosas, na política, cultura etc. Mas, será que encontramos na historiografia um espaço que cresce na mesma proporção? Não resta dúvida que uma história escrita a partir de expressões minoritárias ainda necessita de espaço e tempo para se firmar no horizonte dos profissionais de história.
Se entendermos que o modo de viver a sexualidade tem a ver com a questão de gênero, Foucault pode contribuir muito nesta reflexão , uma vez que ele a analisa a partir da ótica das relações de poder. Neste sentido, ele escreve o seguinte:
Basta-me referir que, nos dias que correm, as regiões onde a grelha mais se aperta, onde os quadrados negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política: longe de ser um elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, é como se o discurso fosse um dos lugares onde estas regiões exercem, de maneira privilegiada, algumas dos seus mais temíveis poderes. O discurso, aparentemente, pode até nem ser nada de por aí além, mas no entanto, os interditos que o atingem, revelam, cedo, de imediato, o seu vínculo ao desejo e o poder. FOUCAULT, Michel. A Ordem do discurso. L’Ordre du discours, Leçon inaugurale ao Collège de France prononcée le 2 décembre 1970, Éditions Gallimard, Paris, 1971.p,2.
Mesmo que haja interditos, ainda é possível construir discussões e firmar posturas a partir das relações5 humanas, dentro e fora das instituições acadêmicas. Ou melhor, é de suma importância que este debate sai das universidades e ganhe as ruas, praças e meios de comunicação de massa.
Queremos encerrar esta breve introdução com as seguintes questões: O que significa ser homem ou mulher no século XIX? Será que as relações de trabalho ou de representatividade (politica) tem alguma coisa a ver com a questão de gênero? Já é possível falar em uma igualdade de gênero ou estamos apenas em um jogo de palavras? Qual a nossa postura como historiadora ou historiador frente a questão de gênero?
Referências
BURKE, Peter. A escrita da História: Novas perspectiva. São Paulo: Editora da Unesp, 1992.p,20
FOUCAULT, Michel. L’Ordre du discours, Leçon inaugurale ao Collège de France prononcée le 2 décembre 1970, Éditions Gallimard, Paris, 1971.
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