Existem muitas coisas que ouvimos na infância, histórias. Contos, ensinamentos que foram contados com tamanha perfeição que com o passar dos anos, não conseguimos distinguir entre o que nós vivemos ou ouvimos. A memória tem dessas coisas. A capacidade de rememorar não é a faculdade de reviver o passado, mas de interpretá-lo a partir do presente.
É por este motivo que nos enganamos, nos confundimos, embaraçamos o passado como se estivéssemos em um sonho. Quem de nós ao se encontrar com pessoas que conviveram conosco há muito tempo, ouvimos histórias das quais nem lembrávamos e, muitas vezes temos a certeza de que não estávamos lá.
Como entender que a memória não é uma cópia do que se passou, mas esta funciona como uma releitura dos acontecimentos, motivados pelo presente ou, que emergem ao nosso consciente por uma cor, foto, filme, cheiro etc. O contexto é combustível para a memória. Contudo, não gostaria de reduzi-la a isto, uma vez que um historiador tem que conhecer suas limitações.
O que me interessa é a formação da história coletiva. De símbolos que contribuem para a formação da sociedade. Me refiro àquele elementos que tornam possível a convivência em sociedade. Se por um lado, ao nos debruçarmos sobre a memória individual e nos deparamos com os labirintos da memória, por outro lado, a memória coletiva se apresenta, a primeira vista como total, acabada e sem falhas.
As religiões ocupam um lugar capital neste cenário. Quem não tem em sua memória afetiva/religiosa as ações de Jesus de Nazaré, fazendo milagres e contando parábolas aos seus discípulos. A religião é fator de congregação. Pessoas vão com uma certa regularidade a lugares de culto, comem ou deixam de comer determinadas coisas, podem ou não vestir roupas, pode aprender ou não certas coisas, tentam regular a vida sexual de todos.
Se as religiões ocupam um lugar importante na memória de um grupo, o esporte, e no caso específico do Brasil, o futebol tem um poder que une gerações. Muitos dos que não viveram o fatídico 1x7 contra a Alemanha serão lembrados com tristeza por muitas pessoas que não viveram estes acontecimentos. Estas pessoas terão acesso as estas informações em casa ou através de algum meio de comunicação de massa.
Sobre os meios de comunicação de massa, a grande imprensa tem-se configurado como o grande oráculo do século XXI. O novo sumo sacerdote, a única fonte de interpretação da vida e da história. Esta grande imprensa atrelada ao capital internacional, ligada e submissa aos grandes centros econômicos que exploram o povo.
Talvez a memória, hoje, mais do que nunca, seja entretenimento, desmemória e subserviência.
A memória é de todos. E todos merecem vida plena e duradoura.
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